UM DIA DAS MÃES INESQUECÍVEL
Credito: http://diariodafoice.com/2010/05/07/um-dia-das-maes-inesquecivel/ )

"Eu não tenho mãe. E ser uma espécie de filho de chocadeira do além não é algo muito agradável, acreditem. Faço análise desde que o mundo é mundo para superar este trauma e não consegui nada até hoje a não ser descobrir que minha foice é uma extensão de um falo que eu também não tenho.
Até aceito, numa boa, ser uma aberração desnaturada, cruel e demoníaca, um arquétipo criado na Idade Média representando todo o mal do mundo. Mas ainda assim dói saber que ninguém nunca me deu de comer fazendo “olha o aviãozinho”.
A data para mim é sempre um tormento que vai além de comprar um presente nas Lojas Americanas e ficar horas na fila. Ela me deixa mais sensível, sorumbático, ainda mais depois de um emocionante e fatídico segundo domingo de maio que presenciei anos atrás. Um Dia das Mães que me fez entender o que é ser filho e o que é ser mãe.
Estava eu num asilo de idosos fazendo uma faxina semanal (bem, creio que não preciso dizer que não falo de varrer o chão…) quando entrei no quarto de uma velha senhora acamada que parecia ter uns cem anos, muito doente, e dormindo. Ao lado da cama estava o filho, um sessentão corpulento e de bigode amarelado, segurando a sua mão.
Assim que o homem me viu, assustou-se, e se aproximou de mim já de joelhos:
— Por favor, não leve a minha mãe hoje.
Respirei fundo, com toda paciência do mundo, e lhe disse calmamente:
— E quem disse que eu vim buscar a sua mãe?
Ele ficou pálido. Não sou muito fã das ironias da vida, mas daquela vez achei engraçado. O sujeito ainda tentou desconversar, fingindo que não era com ele.
— A minha tia Lucrécia saiu para tomar um café.
— Também não vim buscar a sua tia — rebati, já perdendo a paciência. Se tem uma coisa que detesto é gente sem simancol.
— M-mas e-eu morri do quê, afinal?!
— Bem, pra resumir: sabe as três pontes de safena que você tem no coração?
— Sei.
— Deveriam ser quatro.
O homem então se resignou, sentou-se na poltrona e acendeu um cigarro num gesto mais que automático. Mas quando percebeu que aquilo só justificava ainda mais o motivo de eu estar ali, apagou-o no mesmo instante, envergonhado. Ele então me puxou para um canto e fez o mais comovente pedido que eu já ouvi na vida.
— Cara Morte, aquela velha senhora ali na cama vai falecer em poucos dias.
— Quarta-feira, pra ser mais exato.
— Pois é. Não é justo para uma mãe perder um filho na véspera de um Dia das Mães. Eu sou tudo o que restou para esta pobre mulher. Foi ela quem me colocou no mundo, foi ela quem me amamentou, sou tudo o que ela ama na vida e sou tudo o que ela vai deixar por aqui. O que eu lhe peço, cara Morte, é apenas mais um dia com ela, somente mais 24 horas. Por favor, eu imploro: dê a esta velha mãe doente a chance de passar um último Dia das Mães com o seu único filho.
Se eu tivesse um coração talvez ficasse emocionado com um pedido tão piegas. Se eu tivesse lágrimas talvez também chorasse. Talvez. Mas preferi demonstrar algo parecido com afeto esticando o prazo, o que raramente faço. Disse que voltaria, sem falta, à meia-noite do próximo dia. O pobre homem me agradeceu jogando-se aos meus pés.
No dia seguinte, em uma morna e ensolarada tarde de domingo, no pequeno almoço de família improvisado no quarto do asilo, a velha senhora e o seu filho tiveram o seu último dia das mães. Eles se abraçaram, se beijaram, ela abriu presentes. Os dois trocaram palavras de carinho, folhearam álbuns com antigas fotos e lembranças de infância. Para ser um comercial de seguro de vida faltou apenas o pianinho com música sentimental ao fundo.
Após a sobremesa, então, a velha senhora ganhou um ar grave e pediu para que o filho se aproximasse dela. Disse que havia um assunto muito importante para conversarem. Ela queria lhe falar de algo que não poderia mais esconder em seu velho coração de mãe, ainda mais por sentir que não viveria muito depois daquele dia (velha esperta!). Ele perguntou o que era. Ela disse com a maior tranquilidade do mundo: “Filho, você foi adotado”.
Ao ouvir isso: vupt! Empacotei o cara na hora, claro. Sem chance de papinho, ataque cardíaco fulminante. Ele veio extremamente irritado pra cima de mim.
— Ficou maluco?! O combinado não era até à meia-noite?!
— Sim, mas o combinado valeria se ela fosse a sua MÃE. Ontem você havia me dito que ela havia posto você no mundo, amamentado, e coisa e tal. Parece que não é o caso.
— E daí? Quem liga pra isso? Essa mulher cuidou de mim a vida toda! Ela me alimentou, me levou pra escola, me levou para passear, ficou do meu lado na hora das doenças, me ajudou nos momentos difíceis, esteve presente nos momentos mais felizes também. Ela me educou para a vida. Mãe não é só quem bota a gente no mundo, seu imbecil! Mãe é QUEM CRIA!
Aí eu não aguentei. Gritei “chega!” e empacotei a velha também. Serviço completo. Levei os dois e fim de papo. Porque eu não sou burro e entendi perfeitamente o que é ser mãe. Só não sou obrigado a ter paciência com gente que cada hora fala uma coisa"...!
